sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Trecho de Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume 2: 1941-1945, de Winston Churchill

Trecho de Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume 2: 1941-1945, de Winston Churchill




Nosso aliado soviético



A ENTRADA DA RÚSSIA NA GUERRA foi bem-vinda, mas não nos foi imediatamente útil. Os exércitos alemães eram muito fortes. Pareciam poder sustentar durante meses a ameaça de invasão da Inglaterra e, ao mesmo tempo, mergulhar na Rússia. Quase todas as opiniões militares responsáveis afirmavam que os exércitos russos logo seriam derrotados e em sua maior parte destruídos. O governo soviético deixara sua força aérea ser surpreendida no solo e os preparativos militares russos estavam longe de concluídos, um mau começo. Danos assustadores foram sofridos pelos exércitos russos. Apesar da resistência heróica, da competente direção despótica da guerra, do completo desapreço pela vida humana e do desencadeamento de uma guerrilha implacável na retaguarda do avanço alemão, houve, em todo o front russo de 1.200 milhas para o sul de Leningrado, um recuo geral de umas quatrocentas ou quinhentas milhas. A força do governo soviético, a firmeza do povo russo, suas reservas incomensuráveis de material humano, a vasta dimensão do país e os rigores do inverno foram os fatores que acabaram por desgraçar os exércitos de Hitler. Mas nada disso se evidenciava em 1941. O presidente Roosevelt foi considerado temerário ao declarar, em setembro, que a frente russa resistiria e que Moscou não seria tomada. A força e o patriotismo gloriosos do povo russo confirmaram essa opinião.



Mesmo em agosto de 1942, depois da minha visita a Moscou e das conferências lá realizadas, o general Brooke, que me havia acompanhado, achava que as montanhas do Cáucaso seriam atravessadas e que a bacia do mar Cáspio seria dominada pelas forças alemãs, de modo que, em consonância com isso, preparamo-nos na mais ampla escala possível para uma campanha defensiva na Síria e na Pérsia. Durante todo o tempo, tive uma opinião mais otimista que a de meus assessores militares sobre o poder de resistência dos russos. Eu me pautava confiantemente na garantia de Stalin, dada a mim em Moscou, de que ele defenderia a linha do Cáucaso e de que os alemães não chegariam ao mar Cáspio com qualquer força militar. Contudo, recebíamos tão pouca informação russa sobre os recursos e as intenções, que todas as opiniões, num sentido ou noutro, mal passavam de palpites.



É verdade que a entrada da Rússia na guerra desviou os ataques aéreos alemães da Inglaterra e reduziu a ameaça de invasão. Deu-nos um alívio importante no Mediterrâneo. Por outro lado, nos impôs sacrifícios e esforços sumamente pesados. Estávamos, enfim, começando a ficar bem equipados. Nossas fábricas de material bélico escoavam sua produção de toda sorte de suprimentos. Nossos exércitos no Egito e na Líbia travavam combates acirrados e clamavam pelas armas mais modernas, sobretudo tanques e aviões. A tropa do interior da Inglaterra aguardava ansiosamente os tão prometidos equipamentos novos, que, com toda a sua complexidade cada vez maior, estavam, enfim, fluindo para ela. Pois, nesse exato momento, fomos obrigados a fazer enormes desvios de nossos armamentos e suprimentos de todos os tipos, inclusive borracha e petróleo. Sobre nós recaiu a carga de organizar os comboios de suprimentos ingleses e, mais ainda, americanos, e de transportá-los para Murmansk e Arkangel passando por todos os perigos e rigores da travessia do Ártico. O suprimento americano era uma dedução daquilo que, a rigor, fora ou seria transportado com sucesso pelo Atlântico para nós mesmos. Para fazermos esse imenso desvio e renunciar ao fluxo crescente da ajuda americana, sem prejudicar nossa campanha no deserto ocidental, tivemos que restringir todos os preparativos que a prudência exigia para a defesa da Península Malaia e de nosso Império e possessões orientais contra a crescente ameaça do Japão.



Sem questionar no mais leve grau a conclusão, que a história há de afirmar, de que a resistência russa desarticulou o poderio dos exércitos alemães e infligiu danos mortais à energia vital da nação alemã, é lícito deixar claro que, durante mais de um ano depois de a Rússia se envolver na guerra, ela se apresentou ante nossos olhos como um fardo, não uma ajuda. Não obstante, rejubilou-nos ter essa poderosa nação junto a nós na batalha e todos achamos que, ainda que os exércitos soviéticos fossem empurrados até os montes Urais, a Rússia continuaria a exercer uma influência imensa e, em última instância – se perseverasse na guerra – decisiva.



Até o momento em que foi atacado por Hitler, o governo soviético não pareceu importar-se com ninguém senão consigo mesmo. Depois, como era natural, esse estado de ânimo tornou-se mais acentuado. Até então, haviam observado com impassível compostura o colapso do front da França, em 1940, e nosso esforço inútil, em 1941, para criar um front nos Bálcãs. Haviam fornecido uma importante ajuda econômica à Alemanha nazi e tinham-na amparado de muitas formas. Aí, depois de tapeados e apanhados de surpresa, eles mesmos ficaram sob a flamejante espada alemã.



Seu primeiro impulso e sua política duradoura consistiram em pedir todo o socorro possível à Inglaterra e seu Império, cuja possível partilha entre Stalin e Hitler, nos oito meses anteriores, desviara a atenção soviética do aumento da concentração de tropas alemãs no Leste. Eles não hesitaram em apelar, em estridentes termos da maior urgência, para a torturada e esforçada Inglaterra, para que esta lhes enviasse o armamento de que seus próprios exércitos tinham tamanha escassez. Instaram os Estados Unidos a desviar para eles o maior volume possível dos suprimentos com que contávamos e, acima de tudo, já no verão de 1941, clamaram por desembarques ingleses na Europa, quaisquer que fossem os riscos e os custos, para a abertura de uma Segunda Frente. Os comunistas ingleses, que até então haviam feito o pior que podiam – e que não era grande coisa – em nossas fábricas, e que haviam denunciado "a guerra capitalista e imperialista," viraram a casaca da noite para o dia e começaram a rabiscar o slogan "Segunda Frente Já!" nas paredes e nos cartazes.



Não deixamos que esses fatos meio lamentáveis e ignominiosos perturbassem nosso pensamento e fixamos os olhos no sacrifício heróico do povo russo, submetido às calamidades que seu governo fizera desabar sobre ele, e em sua apaixonada defesa da terra natal. Enquanto durasse a luta, isso compensou tudo.



Os russos nunca entenderam minimamente a natureza da operação anfíbia necessária para desembarcar e manter um grande exército num litoral inimigo bem defendido. Até os americanos, nessa época, desconheciam em grande parte essas dificuldades. Superioridade não só naval, mas também aérea, era indispensável no ponto da invasão. Além disso, havia um terceiro fator vital. Uma vasta armada de lanchas de desembarque especialmente construídas, sobretudo muitos tipos de barcaças de transporte de tanques, era a base de qualquer desembarque bem-sucedido contra uma vigorosa defesa. Eu vinha fazendo o que podia para a criação dessa armada, como já se viu e ainda se verá. Mas ela não poderia estar pronta, nem sequer em pequena escala, antes do verão de 1943, e seu poder, como hoje se reconhece em toda parte, só poderia estar na escala suficiente em 1944. No período a que agora chegamos, verão de 1941, não dominávamos o espaço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário