terça-feira, 23 de março de 2010

Livro "Humanidade Sem Raças?" de Sérgio Pena, Publifolha

Conceito de "raças" surgiu para justificar dominação, diz autor; leia trecho
da Folha Online
As "raças" e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade. E o conceito de "raças humanas" surgiu e ganhou força com base em interesses de determinados grupos humanos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos.
Divulgação


Livro explica o conceito de "raças" e propõe a sua "desinvenção"

Essa é a tese defendida pelo doutor em genética humana Sérgio Pena no livro "Humanidade Sem Raças?", volume da Série 21 da Publifolha. O título tem formato de ensaio e aborda o conceito de "raças" e o racismo de forma sintética. Saiba mais sobre o livro
O autor examina a questão sob o prisma da biologia e da genética moderna, com uma perspectiva histórica. E propõe, já no trecho de abertura do livro, que pode ser lido abaixo, a necessidade de "desinvenção" do conceito de "raças".
"Perversamente, o conceito tem sido usado não só para sistematizar e estudar as populações humanas, mas também para criar esquemas classificatórios que parecem justificar o status quo e a dominação de alguns grupos sobre outros", afirma o autor. "Assim, a sobrevivência da idéia de raça é deletéria por estar ligada à crença continuada de que os grupos humanos existem em uma escala de valor."
Leia abaixo o trecho de introdução de "Humanidade Sem Raças?".
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A Bíblia nos apresenta os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Morte, Guerra, Fome e Peste. Com os conflitos na Irlanda do Norte, em Ruanda e nos Bálcãs, no fim do século passado, e após o 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque e os conflitos de Darfur no início do século 21, temos de adicionar quatro novos cavaleiros: Racismo, Xenofobia, Ódio Étnico e Intolerância Religiosa.
Neste livro vamos examinar um desses: o racismo, com o seu principal comparsa, a crença na existência de "raças humanas". Proponho demonstrar que as raças humanas são apenas produto da nossa imaginação cultural. Como disse o epidemiologista americano Jay S. Kaufman, as raças não existem em nossa mente porque são reais, mas são reais porque existem em nossa mente.1
Acredito que a palavra devia ser sempre escrita entre aspas. Como isso comprometeria demais a apresentação do texto, serão omitidas aqui, mas gostaria de sugerir que o leitor as mantivesse, imaginariamente, a cada ocorrência do termo. No passado, a crença de que as raças humanas possuíam diferenças biológicas substanciais e bem demarcadas contribuiu para justificar discriminação, exploração e atrocidades. Ao longo dos tempos, esse infeliz conceito integrou-se à trama da nossa sociedade, sem que sua adequação ou veracidade tenham sido suficientemente questionadas.
Perversamente, o conceito tem sido usado não só para sistematizar e estudar as populações humanas, mas também para criar esquemas classificatórios que parecem justificar o status quo e a dominação de alguns grupos sobre outros. Assim, a sobrevivência da idéia de raça é deletéria por estar ligada à crença continuada de que os grupos humanos existem em uma escala de valor. Essa persistência é tóxica, contaminando e enfraquecendo a sociedade como um todo.
Henry Louis Gates Jr. (1950), professor da Universidade de Harvard e diretor do Instituto w.e.b. Du Bois de Pesquisa Sobre Africanos e Afro-Americanos, é um brilhante intelectual norte-americano da atualidade. Em um artigo intitulado "A Ciência do Racismo", recentemente publicado online na revista The Root, Gates faz a seguinte afirmativa: "[...] a última grande batalha sobre o racismo não será lutada com relação ao acesso a um balcão de restaurante, a um quarto de hotel, ao direito de votar, ou mesmo ao direito de ocupar a Casa Branca; ela será lutada no laboratório, em um tubo de ensaio, sob um microscópio, no nosso genoma, no campo de guerra do nosso DNA. É aqui que nós, como uma sociedade, ordenaremos e interpretaremos a nossa diversidade genética".2
Vou seguir a sugestão de Gates e examinar toda a questão das raças humanas e do racismo sob o prisma da biologia e da genética moderna, com uma perspectiva histórica. Assim, contrasto três modelos estruturais da diversidade humana. O primeiro, com base na divisão da humanidade em raças bem definidas, foi desenvolvido nos séculos 17 e 18 e culminou no racismo científico da segunda metade do século 19 e no movimento nazista do século 20. Esse equivocado modelo tipológico definiu as raças como muito diferentes entre si e internamente homogêneas. E foi essa crença de que as diferentes raças humanas possuíam diferenças biológicas substanciais e bem demarcadas que contribuiu para justificar discriminação, exploração e atrocidades.
O segundo foi o modelo populacional. Incorporando novos conhecimentos científicos, ele surgiu após o final da Segunda Guerra Mundial, e fez a divisão da humanidade em populações, que passaram a ser corretamente percebidas como internamente heterogêneas e geneticamente sobrepostas. Infelizmente ele se degenerou em um modelo "populacional de raças" e tem sido compatível com a continuação do preconceito e da exploração.
O que proponho para o século 21 é a substituição desses dois modelos prévios por um novo paradigma genômico/individual de estrutura da diversidade humana, que vê essa espécie dividida não em raças ou populações, mas em seis bilhões de indivíduos genomicamente diferentes entre si, mas com graus maiores ou menores de parentesco em suas variadas linhagens genealógicas.
Este terceiro e novo modelo genômico/individual valoriza cada ser humano como único, em vez de enfatizar seu pertencimento a uma população específica, e está solidamente alicerçado nos avanços da genômica, especialmente na demonstração genética e molecular da individualidade genética humana e na comprovação da origem única e recente da humanidade moderna na África. Ele é fundamentalmente genealógico e baseado na história evolucionária humana - enfatiza a individualidade e a singularidade das pessoas e o fato de que a humanidade é uma grande família. Nele, a noção de raça humana perde totalmente o sentido e se desfaz como fumaça.
A mensagem principal deste livro é que se deve fazer todo esforço em prol de uma sociedade desracializada, que valorize e cultive a singularidade do indivíduo e na qual cada um tenha a liberdade de assumir, por escolha pessoal, uma pluralidade de identidades, em vez de um rótulo único, imposto pela coletividade. Esse sonho está em perfeita sintonia com o fato demonstrado pela genética moderna: cada um de nós tem uma individualidade genômica absoluta, que interage com o ambiente para moldar uma exclusiva trajetória de vida.
A Invenção das Raças
Parece existir uma noção generalizada de que o conceito de raças humanas e sua indesejável conseqüência, o racismo, são tão velhos como a humanidade. Há mesmo quem pense neles como parte essencial da "natureza humana". Isso não é verdade. Pelo contrário, as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade.
Desde os primórdios da humanidade houve violência entre grupos humanos, mas só na era moderna essa violência passou a ser justificada por uma ideologia racista. De fato, nas civilizações antigas não são encontradas evidências inequívocas da existência de racismo (que não deve ser confundido com rivalidade entre comunidades). É certo que havia escravidão na Grécia, em Roma, no mundo árabe e em outras regiões. Mas os escravos eram geralmente prisioneiros de guerra e não havia a idéia de que fossem "naturalmente" inferiores aos seus senhores. A escravidão era mais conjuntural que estrutural - se o resultado da guerra tivesse sido outro, os papéis de senhor e escravo estariam invertidos.
A emergência do racismo e a cristalização do conceito de raças coincidiram historicamente com dois fenômenos da era moderna: o início do tráfico de escravos da África para as Américas e o esvanecimento do tradicional espírito religioso em favor de interpretações científicas da natureza.
Diversidade Humana
Antes de prosseguirmos, proponho ao leitor um simples experimento. Dirija-se a um local onde haja grande número de pessoas - uma sala de aula, um restaurante, o saguão de um edifício comercial ou mesmo a calçada de uma rua movimentada. Agora observe cuidadosamente as pessoas ao redor.
Deverá logo saltar aos olhos que somos todos muito parecidos e, ao mesmo tempo, muito diferentes. Podemos ver grandes similaridades no plano corporal, na postura ereta, na pele fina e na falta relativa de pêlos, características da espécie humana que nos distinguem dos outros primatas.
Por outro lado, serão evidentes as extraordinárias variações morfológicas entre as diferentes pessoas: sexo, idade, altura, peso, massa muscular e distribuição de gordura corporal, comprimento, cor e textura dos cabelos (ou ausência deles), cor e formato dos olhos, formatos do nariz e lábios, cor da pele etc.
Essas variações são quantitativas, contínuas, graduais. A priori, não existe absolutamente qualquer razão para valorizar uma ou outra dessas características no exercício de perscrutação. Mas logo se descobre que nem todos os traços têm a mesma relevância. Alguns são mais importantes; por exemplo, quando reparamos que algumas pessoas são mais atraentes que outras.
Além disso, há características que podem nos fornecer informações sobre a origem geográfica ancestral das pessoas: uma pele negra pode nos levar a inferir que a pessoa tenha ancestrais africanos, olhos puxados evocam ancestralidade oriental etc. Mas isso é tudo: não há nada mais que se possa captar à flor da pele.
Pense bem. Como é possível que o fato de possuir ancestrais na África faça o todo de uma pessoa ser diferente de quem tem ancestrais na Ásia ou Europa? O que têm a pigmentação da pele, o formato e a cor dos olhos ou a textura do cabelo a ver com as qualidades humanas singulares que determinam uma individualidade existencial? Tratar um indivíduo com base na cor da sua pele ou na sua aparência física é claramente errado, pois alicerça toda a relação em algo que é moralmente irrelevante com respeito ao caráter ou ações daquela pessoa.
1 Kaufman, J. S., "How Inconsistencies in Racial Classification Demystify The Race Construct in Public Health Statistics". Em: Epidemiology, 10:108-11, 1999.
2 Gates, H. L., "The Science of Racism". Em: The Root (www.theroot.com/id/46680/output/print), 2008.
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"Humanidade Sem Raças?"
Autor: Sergio D. J. Pena
Editora: Publifolha
Páginas: 72

sexta-feira, 19 de março de 2010

O projeto "les pages du jour"

O projeto "les pages du jour" consiste em ler pelo menos quatro páginas de quatro livros diferentes por dia.

Nenhum livro se repete nos sete dias da semana.

Isso dá um total de 28 livros lidos simultaneamente. 112 páginas por semana.

Livros jurídicos não contam...

Tentarei fazer um relato aqui dos resultados.

A data de início do projeto é...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Revista Veja Ed. 1989 (30 de dezembro de 2006): Seleção de 10 Livros "que explicam o mundo"

Para reflexão crítica. Inclusive da própria seleção.

FONTE: REVISTA VEJA Edição 1989
30 de dezembro de 2006

Perspectiva 2007: Livros/Cultura
10 livros que explicam o mundo


"OS ERROS DA AMÉRICA

O Dilema Americano, de Francis Fukuyama (tradução de Nivaldo Montigelli Jr.; Rocco; 200 páginas; 32 reais) – Cientista político da Universidade Johns Hopkins, Fukuyama sempre foi um ensaísta ousado. Celebrizou-se ao anunciar que a queda do comunismo e a vitória mundial da democracia representavam o "fim da história". O autor sempre esteve alinhado com os chamados "neoconservadores", escola que teve grande influência sobre o governo Bush. O Dilema Americano é uma revisão e um rompimento com o ideário neoconservador – e uma denúncia dos equívocos que ele produziu na política externa dos Estados Unidos, em especial no Iraque. O governo americano bem que poderia se valer da lucidez autocrítica de Fukuyama em 2007.



A INDÚSTRIA DO DESEMPREGO


Andrew Shurtleff/AP


Desemprego de Colarinho-Branco, de Barbara Ehrenreich (tradução de Ana Maria Mandim; Record; 252 páginas; 39,90 reais) – O livro da jornalista Barbara Ehrenreich é, de certo modo, um exercício frustrado de jornalismo "participativo". Barbara disfarçou-se de relações-públicas desempregada na tentativa de conhecer uma grande corporação americana por dentro. Não conseguiu um emprego – mas conheceu bem o cinzento mundo dos desempregados de colarinho-branco. Desemprego de Colarinho-Branco é um tour pelas piores angústias da classe média. E é também um chamado ao bom senso: Barbara é uma crítica ácida dos "instrutores de carreira" e outros empreendimentos de auto-ajuda que drenam os recursos apertados dos desempregados.



O VALOR DA RAÇA

Não Somos Racistas, de Ali Kamel (Nova Fronteira; 144 páginas; 22 reais) – Diretor executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel escreveu um livro pautado pelo que se poderia chamar de lucidez dos fatos. Com clareza didática, ele desmonta as propostas de lei que estabelecem cotas raciais em empregos públicos e universidades (projetos que, aliás, deverão ser examinados pelo Congresso em 2007). Kamel demonstra que, na pretensão de corrigir desigualdades, essas leis na verdade acabariam instaurando a discriminação como política de Estado. A análise das estatísticas é um ponto forte do livro – uma demonstração cabal de que a desigualdade no Brasil é social, e não racial.



A GLOBALIZAÇÃO DO CRIME

Ilícito, de Moisés Naím (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 338 páginas; 34,50 reais) – Todo ano 2 milhões de pessoas são traficadas de um país para outro como escravas. Esse é apenas um dos dados estarrecedores levantados nesse livro pelo venezuelano Moisés Naím, ex-diretor executivo do Banco Mundial e editor da Foreign Policy, revista americana especializada em política internacional. A obra é uma radiografia do crime internacional, em seus mais variados ramos: tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, comércio ilegal de armas, falsificação. A globalização derruba barreiras e enriquece os agentes econômicos de todo o mundo. Mas, como essa obra oportunamente lembra, é preciso estar alerta: a globalização também abre oportunidades para os empreendedores do crime organizado.



ALERTAS SOBRE O AMBIENTE


Terry Smith/Time Life Pictures/Getty Images

James Lovelock

A Vingança de Gaia, de James Lovelock (tradução de Ivo Korytowski; Intrínseca; 160 páginas; 29,90 reais), e Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore (tradução de Isa Mara Lando; Manole; 328 páginas; 64 reais) – O inglês James Lovelock celebrizou-se por lançar a hipótese de que a Terra funciona como uma espécie de organismo auto-regulável. A Vingança de Gaia trata da "reação" desse organismo à poluição e à degradação ambiental causadas pela atividade humana. O americano Al Gore – o político que poderia, ou deveria, ter sido o presidente dos Estados Unidos – tornou-se uma espécie de garoto-propaganda da catástrofe: em palestras, no documentário e no livro Uma Verdade Inconveniente, ele tem chamado a atenção para o desastre – iminente, mas ainda evitável – que o aquecimento global pode causar. Cada um a seu modo, os dois livros são um alerta imprescindível quanto ao perigoso estado do planeta.



RAÍZES DO ÓDIO

Ocidentalismo, de Ian Buruma e Avishai Margalit (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 168 páginas; 29,50 reais) – A palavra que dá título a esse livro descreve o cabedal de idéias falsas que o Oriente nutre a respeito do Ocidente. O ensaísta holandês Buruma e o filosofo israelense Margalit examinam as raízes dessas representações culturais distorcidas, e a maneira como elas desembocam em ódio. É um ensaio esclarecedor, que permite uma compreensão mais profunda dos terroristas e fanáticos que, infelizmente, ainda estarão aqui em 2007.



UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

A Loucura de Churchill, de Christopher Catherwood (tradução de Clóvis Marques; Record; 308 páginas; 46,90 reais) – Embora tenham derrubado com facilidade o regime de Saddam Hussein no Iraque, os Estados Unidos não conseguiram até agora pacificar o país, que está à beira da guerra civil. Historiador da Universidade de Cambridge, o britânico Catherwood desvenda as raízes do conflito interno no Iraque. Bem documentado, seu livro mostra como, depois da I Guerra Mundial, Winston Churchill, então ministro das Colônias do império britânico, ajudou a desenhar um país impossível na Mesopotâmia, abrigando grupos inconciliáveis – xiitas, sunitas, curdos. Um livro fundamental para quem deseja entender o Oriente Médio.



O ENIGMA TURCO

Neve, de Orhan Pamuk (tradução de Luciano Machado; Companhia das Letras; 488 páginas; 54 reais) – O romance do turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura de 2006, demonstra que a ficção é não apenas uma fonte de prazer estético, mas também um instrumento poderoso para entender o mundo. É uma obra muito oportuna no momento em que a Turquia pretende ingressar na União Européia e no qual os conflitos religiosos estão na ordem do dia. O fundamentalismo e o conflito entre a religião islâmica e o Estado laico são temas centrais na história do poeta que visita a pequena cidade de Kars, na Turquia, depois de anos no exílio. E o livro ainda permite uma especulação sobre o lugar da arte no meio desses conflitos políticos.



O PAPEL DOS GENES

O Cérebro do Século XXI, de Steven Rose (tradução de Helena Londres; Globo; 376 páginas; 39 reais) – O inglês Rose é um polemista talentoso. Seu livro é uma bela introdução à sua área de estudos, a neurociência. Trata-se de um dos campos mais promissores do pensamento atual, e Rose não esconde seu entusiasmo por isso. Mas ele também aponta os limites e dilemas éticos de descobertas recentes e aborda temas próximos ao cotidiano, como o uso de drogas psiquiátricas.



MERCADO VIRTUAL

A Cauda Longa, de Chris Anderson (tradução de Afonso Celso da Cunha Serra; Campus/Elsevier; 256 páginas; 55 reais) – Esse livro é leitura essencial para quem deseja entender como a internet está remodelando a economia. Editor da revista Wired, Anderson demonstra de que forma o comércio de músicas, livros e outros produtos na internet favorece os nichos de mercado – e produz o padrão de vendas chamado de 'cauda longa'."

domingo, 14 de março de 2010

"A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón

Obra premiada de Carlos Ruiz Zafón, "A Sombra do Vento" cuida da história de um livro perdido em um cemitério de livros esquecidos. Daniel, um menino de 11 anos escolhe, ou melhor, encontra o livro "A Sombra do Vento" e aí começa a aventura, ambientada em Barcelona (Espanha).