Para reflexão crítica. Inclusive da própria seleção.
FONTE: REVISTA VEJA Edição 1989
30 de dezembro de 2006
Perspectiva 2007: Livros/Cultura
10 livros que explicam o mundo
"OS ERROS DA AMÉRICA
O Dilema Americano, de Francis Fukuyama (tradução de Nivaldo Montigelli Jr.; Rocco; 200 páginas; 32 reais) – Cientista político da Universidade Johns Hopkins, Fukuyama sempre foi um ensaísta ousado. Celebrizou-se ao anunciar que a queda do comunismo e a vitória mundial da democracia representavam o "fim da história". O autor sempre esteve alinhado com os chamados "neoconservadores", escola que teve grande influência sobre o governo Bush. O Dilema Americano é uma revisão e um rompimento com o ideário neoconservador – e uma denúncia dos equívocos que ele produziu na política externa dos Estados Unidos, em especial no Iraque. O governo americano bem que poderia se valer da lucidez autocrítica de Fukuyama em 2007.
A INDÚSTRIA DO DESEMPREGO
Andrew Shurtleff/AP
Desemprego de Colarinho-Branco, de Barbara Ehrenreich (tradução de Ana Maria Mandim; Record; 252 páginas; 39,90 reais) – O livro da jornalista Barbara Ehrenreich é, de certo modo, um exercício frustrado de jornalismo "participativo". Barbara disfarçou-se de relações-públicas desempregada na tentativa de conhecer uma grande corporação americana por dentro. Não conseguiu um emprego – mas conheceu bem o cinzento mundo dos desempregados de colarinho-branco. Desemprego de Colarinho-Branco é um tour pelas piores angústias da classe média. E é também um chamado ao bom senso: Barbara é uma crítica ácida dos "instrutores de carreira" e outros empreendimentos de auto-ajuda que drenam os recursos apertados dos desempregados.
O VALOR DA RAÇA
Não Somos Racistas, de Ali Kamel (Nova Fronteira; 144 páginas; 22 reais) – Diretor executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel escreveu um livro pautado pelo que se poderia chamar de lucidez dos fatos. Com clareza didática, ele desmonta as propostas de lei que estabelecem cotas raciais em empregos públicos e universidades (projetos que, aliás, deverão ser examinados pelo Congresso em 2007). Kamel demonstra que, na pretensão de corrigir desigualdades, essas leis na verdade acabariam instaurando a discriminação como política de Estado. A análise das estatísticas é um ponto forte do livro – uma demonstração cabal de que a desigualdade no Brasil é social, e não racial.
A GLOBALIZAÇÃO DO CRIME
Ilícito, de Moisés Naím (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 338 páginas; 34,50 reais) – Todo ano 2 milhões de pessoas são traficadas de um país para outro como escravas. Esse é apenas um dos dados estarrecedores levantados nesse livro pelo venezuelano Moisés Naím, ex-diretor executivo do Banco Mundial e editor da Foreign Policy, revista americana especializada em política internacional. A obra é uma radiografia do crime internacional, em seus mais variados ramos: tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, comércio ilegal de armas, falsificação. A globalização derruba barreiras e enriquece os agentes econômicos de todo o mundo. Mas, como essa obra oportunamente lembra, é preciso estar alerta: a globalização também abre oportunidades para os empreendedores do crime organizado.
ALERTAS SOBRE O AMBIENTE
Terry Smith/Time Life Pictures/Getty Images
James Lovelock
A Vingança de Gaia, de James Lovelock (tradução de Ivo Korytowski; Intrínseca; 160 páginas; 29,90 reais), e Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore (tradução de Isa Mara Lando; Manole; 328 páginas; 64 reais) – O inglês James Lovelock celebrizou-se por lançar a hipótese de que a Terra funciona como uma espécie de organismo auto-regulável. A Vingança de Gaia trata da "reação" desse organismo à poluição e à degradação ambiental causadas pela atividade humana. O americano Al Gore – o político que poderia, ou deveria, ter sido o presidente dos Estados Unidos – tornou-se uma espécie de garoto-propaganda da catástrofe: em palestras, no documentário e no livro Uma Verdade Inconveniente, ele tem chamado a atenção para o desastre – iminente, mas ainda evitável – que o aquecimento global pode causar. Cada um a seu modo, os dois livros são um alerta imprescindível quanto ao perigoso estado do planeta.
RAÍZES DO ÓDIO
Ocidentalismo, de Ian Buruma e Avishai Margalit (tradução de Sérgio Lopes; Jorge Zahar; 168 páginas; 29,50 reais) – A palavra que dá título a esse livro descreve o cabedal de idéias falsas que o Oriente nutre a respeito do Ocidente. O ensaísta holandês Buruma e o filosofo israelense Margalit examinam as raízes dessas representações culturais distorcidas, e a maneira como elas desembocam em ódio. É um ensaio esclarecedor, que permite uma compreensão mais profunda dos terroristas e fanáticos que, infelizmente, ainda estarão aqui em 2007.
UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA
A Loucura de Churchill, de Christopher Catherwood (tradução de Clóvis Marques; Record; 308 páginas; 46,90 reais) – Embora tenham derrubado com facilidade o regime de Saddam Hussein no Iraque, os Estados Unidos não conseguiram até agora pacificar o país, que está à beira da guerra civil. Historiador da Universidade de Cambridge, o britânico Catherwood desvenda as raízes do conflito interno no Iraque. Bem documentado, seu livro mostra como, depois da I Guerra Mundial, Winston Churchill, então ministro das Colônias do império britânico, ajudou a desenhar um país impossível na Mesopotâmia, abrigando grupos inconciliáveis – xiitas, sunitas, curdos. Um livro fundamental para quem deseja entender o Oriente Médio.
O ENIGMA TURCO
Neve, de Orhan Pamuk (tradução de Luciano Machado; Companhia das Letras; 488 páginas; 54 reais) – O romance do turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura de 2006, demonstra que a ficção é não apenas uma fonte de prazer estético, mas também um instrumento poderoso para entender o mundo. É uma obra muito oportuna no momento em que a Turquia pretende ingressar na União Européia e no qual os conflitos religiosos estão na ordem do dia. O fundamentalismo e o conflito entre a religião islâmica e o Estado laico são temas centrais na história do poeta que visita a pequena cidade de Kars, na Turquia, depois de anos no exílio. E o livro ainda permite uma especulação sobre o lugar da arte no meio desses conflitos políticos.
O PAPEL DOS GENES
O Cérebro do Século XXI, de Steven Rose (tradução de Helena Londres; Globo; 376 páginas; 39 reais) – O inglês Rose é um polemista talentoso. Seu livro é uma bela introdução à sua área de estudos, a neurociência. Trata-se de um dos campos mais promissores do pensamento atual, e Rose não esconde seu entusiasmo por isso. Mas ele também aponta os limites e dilemas éticos de descobertas recentes e aborda temas próximos ao cotidiano, como o uso de drogas psiquiátricas.
MERCADO VIRTUAL
A Cauda Longa, de Chris Anderson (tradução de Afonso Celso da Cunha Serra; Campus/Elsevier; 256 páginas; 55 reais) – Esse livro é leitura essencial para quem deseja entender como a internet está remodelando a economia. Editor da revista Wired, Anderson demonstra de que forma o comércio de músicas, livros e outros produtos na internet favorece os nichos de mercado – e produz o padrão de vendas chamado de 'cauda longa'."
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