Fonte: Consultor Jurídico
Livro explica fenômeno da judicialização da vida
Por Rodrigo Haidar
Há um mês, o Supremo Tribunal Federal foi palco de uma série de audiências públicas sobre a adoção de cotas raciais como critério de ingresso em universidades. O objetivo foi o de instruir o processo no qual se decidirá se as universidades podem reservar um percentual de suas vagas para alunos negros. Ainda neste primeiro semestre, o STF deve decidir se mulheres grávidas de fetos anencéfalos têm o direito de interromper a gravidez. Outro tema polêmico na pauta da Corte Suprema neste ano é a possibilidade de os efeitos da união estável entre homem e mulher serem estendidos às relações homoafetivas.
Da política à ciência. Da economia à religião. Pense em um tema importante para a sociedade: a última palavra sobre ele será ou foi dada pelo Supremo Tribunal Federal. Agrade-nos ou não, a Constituição de 1988 fez do Judiciário — cuja representação máxima é o Supremo — o Poder que determina os limites dos outros dois Poderes da República. Não é por outra razão que, hoje, discutem-se nas ruas as decisões do STF com empolgação semelhante à das discussões que precedem clássicos do futebol.
Mas o fato de todo mundo falar do Supremo não significa que todos o compreendam ou tenham clara a dimensão de seu papel institucional. O livro Controle de Constitucionalidade Moderno, escrito pelo advogado e professor de Direito Constitucional Saul Tourinho Leal, foi feito sob medida para que este “Poder Supremo” seja bem compreendido.
Lançado pela Editora Impetus, o livro é um verdadeiro manual esquemático para entender o papel da Justiça não só no Brasil, mas no mundo. A obra responde as diversas perguntas surgidas na esteira do protagonismo do Poder Judiciário: a independência entre os poderes acabou? Por que o Supremo pode decidir sobre tudo, até sobre o orçamento da União? Por que pode determinar que a Executivo pague determinado tratamento médico? Por que pode regular um tema até que o Legislativo, omisso, legisle sobre ele?
As dúvidas nascem às pencas e as respostas são complexas. O didatismo ímpar do professor Tourinho Leal, contudo, tornam as respostas mais simples do que aparentam ser. O livro é uma coletânea de tudo o que o STF tem decidido em torno do controle de constitucionalidade nos últimos tempos. Sua leitura revela que o autor é um dos raros privilegiados que conhecem bem a Corte Suprema.
Não é à toa: a obra foi escrita dentro do Plenário do STF, durante as sessões das quartas e quintas-feiras. Com a pontualidade do ministro Marco Aurélio, sempre que o Pleno se reúne, o advogado Saul Tourinho Leal está nas primeiras fileiras da plateia tomando notas. Observador intenso, costuma atentar aos detalhes que à primeira vista parecem desimportantes, mas são fundamentais para entender o funcionamento do tribunal.
Viagem pela Constituição
O resultado destes anos de estudo in loco foi publicado em 396 páginas que nos remetem a uma viagem ao mundo do controle de constitucionalidade. Nada escapa. Desde a introdução, onde o autor explica para que serve uma Constituição, a linguagem simples e analítica ajuda a desvendar esse movimento histórico no qual o Judiciário se torna o protagonista e comandante dos destinos do país.
Para a boa compreensão do fenômeno, o autor lança mão da análise comparada em diversos pontos do livro. Por exemplo, quando conta que o instituto da modulação dos efeitos das decisões judiciais ganhou relevância nos Estados Unidos, na progressista Corte de Warren. Em 1961, a Suprema Corte americana decidiu que provas obtidas ilegalmente pela autoridade policial não poderiam ser admitidas em juízo. A decisão geraria um efeito cascata de proporções imensuráveis em casos já julgados, nos quais provas ilegais serviram para a formação da culpa. A saída foi determinar que a decisão se aplicasse apenas daquele momento em diante.
Com esse exemplo, Saul Tourinho Leal nos faz entender de forma muita mais clara o que é a tal modulação dos efeitos. E com diversos outros exemplos semelhantes — o livro é recheado deles —, o autor desmitifica o controle de constitucionalidade para que o leitor possa compreender os tempos em que vive e acompanhar como parte o processo histórico que transformou o Judiciário no principal Poder da sociedade.
A linguagem é técnica e bem explicativa em diversas passagens, o que transforma o livro um grande instrumento de pesquisa e trabalho para estudantes e profissionais do Direito. Mas a escrita quase informal em tantos outros trechos torna a obra uma prazerosa leitura também para quem quer apenas entender os movimentos do Direito e da Justiça.
Serviço
Livro: Controle de Constitucionalidade Moderno
Autor: Saul Tourinho Leal
Páginas: 396
Editora: Impetus
Preço: R$ 69,90
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
First Chapter: "O Grande Incêndio" de Shirley Hazzard - romancista bissexta que vale a pena
O Grande Incêndio, de Shirley Hazzard (tradução de Luiz Antonio Oliveira de Araújo; Companhia das Letras; 368 páginas; 49 reais) – A australiana Shirley Hazzard é uma romancista bissexta. Esse seu quarto livro apareceu vinte anos depois do terceiro. Mas vale a pena esperar por suas obras: vencedor do National Book Awards, um dos mais importantes prêmios literários americanos, O Grande Incêndio é um retrato inquietante das ambigüidades morais do pós guerra e dos choques culturais no Japão ocupado pelos aliados. O protagonista é Aldred Leith, um major britânico que, em 1947, sai em busca de material para um livro sobre a bomba atômica de Hiroshima e acaba se enredando em uma complicada relação com a filha do militar australiano que o recebe no Japão.
Leia trecho - Capítulo 1
"Agora ia começar. A inevitabilidade percorreu o trem como uma exalação. Ouviam se batidas, risos nervosos, assobios e a gritaria dos retardatários. O megafone despejava anúncios incompreensíveis em inglês e japonês. Na plataforma, antes mesmo que o trem partisse, os rostos assumiram a expressão de quem fica.
Leith ia sentado à janela, o corpo balançando docilmente ao sabor do movimento do trem. Não tardaria a constatar que a chuva continuava a cair na periferia carbonizada de Tóquio, infestando até mesmo o vagão com aquele cheiro espectral de cinzas. Por ora, estava ocupado em examinar uma fotografia do pai. Aldred Leith segurava um livro na mão direita — não o lia, apenas observava a imagem do pai na contracapa.
Era um daqueles retratos de autor à mesa de trabalho. Simulando uma interrupção momentânea, o homem estava parcialmente voltado para a câmara, o cotovelo esquerdo apoiado no mata borrão, a mão direita espalmada sobre o joelho. Tinha traços finos e bem desenhados, olhos claros, uma pálpebra semicerrada. A boca tensa. Testa alta, cabelo denso, branco, comprido. Tronco encorpado, mas não em demasia; vestia se sem afetação, roupa velha e de boa qualidade. Na infância, Leith se perguntava como era possível o pai andar sempre bem vestido se quase não comprava roupa: uma aparente incongruência, como andar permanentemente com barba de dois dias por fazer.
Mais contida que serena, a expressão era enigmática. Os móveis que o circundavam não davam muitas pistas — na parte superior da escrivaninha de madeira escura viam se escaninhos e pequenas gavetas fechadas. A escrivaninha era parte tão importante do ambiente familiar, inseparável das variações de humor do pai — parecendo mesmo, para o menino, gerar essas variações —, que até aquele momento o filho nunca a examinara com olhos de adulto. Para tomar esse distanciamento, fora necessário um conflito mundial, uma ausência durante a guerra, uma viagem mundo afora, uma longa peregrinação pela Ásia, uma manhã chuvosa num trem estrangeiro.
Na escrivaninha não havia telefone, nem relógio ou calendário. O vaso com rosas, saltando, implausível, à vista, teria, possivelmente, sido tomado de empréstimo de outra sala pelo fotógrafo. Sobre o mata borrão, duas páginas manuscritas estavam encobertas pela manga do paletó de tweed. Canetas e lápis se abriam em leque no porta lápis, junto a uns livros novos, cujos títulos, apenas legíveis, eram os de traduções dos romances de Oliver Leith feitas no pós guerra. Havia notas fiscais espetadas em uma haste metálica, uma salva com clipes e um peso de papel de ônix. Impossível imaginar cores, a não ser as das flores contrabandeadas; nenhum objeto ali, fosse pela forma, fosse pelo material, convidava ao contato das mãos. Nenhuma fotografia. Nada que sugerisse intimidade ou afeto.
O filho adulto julgou a fotografia desprovida de amor. O pai, tão famoso por escrever sobre o amor — amor por si próprio, pelos lugares, pelas mulheres e pelos homens —, cultivava uma notória distância no convívio íntimo. A vida dele, da esposa, assim como a do filho, era uma sucessão de deslocamentos: havia romances de amor ambientados em cenários que iam desde a Manchúria até Madagáscar. O livro mais recente, resultado de um inverno inclemente na Grécia, não era exceção. E se intitulava Os gelos do Partenon.
Se o homem se levantasse e saísse do retrato, o tronco robusto pareceria minguar no atarracado das pernas curtas. A estatura mais elevada do filho, ainda que não excessiva, devia se à mãe, assim como os olhos escuros.
Durante todo esse tempo, o corpo de Leith foi ganhando velocidade. Ele abandonou o livro e se interessou pelo mundo do outro lado da janela: a cidade molhada cedia lugar às plantações, as plantações encharcadas se rendiam à paisagem. O conjunto ocasionalmente interrompido por um túnel abrupto ou pelo açoite de um trem em sentido contrário. O corpo seguia avançando, ainda que prostrado no banco. O corpo tinha histórias para contar — incontáveis cidades, vilarejos, países, inumeráveis encontros: aos olhos de outrem, tal privação e tanto empenho constituiriam um feito. O próprio pai de Leith tinha encenado o truque da mobilidade, consumindo se em receptividade e novas impressões. O filho procurava recordar as despedidas nas plataformas de estação."
Leia trecho - Capítulo 1
"Agora ia começar. A inevitabilidade percorreu o trem como uma exalação. Ouviam se batidas, risos nervosos, assobios e a gritaria dos retardatários. O megafone despejava anúncios incompreensíveis em inglês e japonês. Na plataforma, antes mesmo que o trem partisse, os rostos assumiram a expressão de quem fica.
Leith ia sentado à janela, o corpo balançando docilmente ao sabor do movimento do trem. Não tardaria a constatar que a chuva continuava a cair na periferia carbonizada de Tóquio, infestando até mesmo o vagão com aquele cheiro espectral de cinzas. Por ora, estava ocupado em examinar uma fotografia do pai. Aldred Leith segurava um livro na mão direita — não o lia, apenas observava a imagem do pai na contracapa.
Era um daqueles retratos de autor à mesa de trabalho. Simulando uma interrupção momentânea, o homem estava parcialmente voltado para a câmara, o cotovelo esquerdo apoiado no mata borrão, a mão direita espalmada sobre o joelho. Tinha traços finos e bem desenhados, olhos claros, uma pálpebra semicerrada. A boca tensa. Testa alta, cabelo denso, branco, comprido. Tronco encorpado, mas não em demasia; vestia se sem afetação, roupa velha e de boa qualidade. Na infância, Leith se perguntava como era possível o pai andar sempre bem vestido se quase não comprava roupa: uma aparente incongruência, como andar permanentemente com barba de dois dias por fazer.
Mais contida que serena, a expressão era enigmática. Os móveis que o circundavam não davam muitas pistas — na parte superior da escrivaninha de madeira escura viam se escaninhos e pequenas gavetas fechadas. A escrivaninha era parte tão importante do ambiente familiar, inseparável das variações de humor do pai — parecendo mesmo, para o menino, gerar essas variações —, que até aquele momento o filho nunca a examinara com olhos de adulto. Para tomar esse distanciamento, fora necessário um conflito mundial, uma ausência durante a guerra, uma viagem mundo afora, uma longa peregrinação pela Ásia, uma manhã chuvosa num trem estrangeiro.
Na escrivaninha não havia telefone, nem relógio ou calendário. O vaso com rosas, saltando, implausível, à vista, teria, possivelmente, sido tomado de empréstimo de outra sala pelo fotógrafo. Sobre o mata borrão, duas páginas manuscritas estavam encobertas pela manga do paletó de tweed. Canetas e lápis se abriam em leque no porta lápis, junto a uns livros novos, cujos títulos, apenas legíveis, eram os de traduções dos romances de Oliver Leith feitas no pós guerra. Havia notas fiscais espetadas em uma haste metálica, uma salva com clipes e um peso de papel de ônix. Impossível imaginar cores, a não ser as das flores contrabandeadas; nenhum objeto ali, fosse pela forma, fosse pelo material, convidava ao contato das mãos. Nenhuma fotografia. Nada que sugerisse intimidade ou afeto.
O filho adulto julgou a fotografia desprovida de amor. O pai, tão famoso por escrever sobre o amor — amor por si próprio, pelos lugares, pelas mulheres e pelos homens —, cultivava uma notória distância no convívio íntimo. A vida dele, da esposa, assim como a do filho, era uma sucessão de deslocamentos: havia romances de amor ambientados em cenários que iam desde a Manchúria até Madagáscar. O livro mais recente, resultado de um inverno inclemente na Grécia, não era exceção. E se intitulava Os gelos do Partenon.
Se o homem se levantasse e saísse do retrato, o tronco robusto pareceria minguar no atarracado das pernas curtas. A estatura mais elevada do filho, ainda que não excessiva, devia se à mãe, assim como os olhos escuros.
Durante todo esse tempo, o corpo de Leith foi ganhando velocidade. Ele abandonou o livro e se interessou pelo mundo do outro lado da janela: a cidade molhada cedia lugar às plantações, as plantações encharcadas se rendiam à paisagem. O conjunto ocasionalmente interrompido por um túnel abrupto ou pelo açoite de um trem em sentido contrário. O corpo seguia avançando, ainda que prostrado no banco. O corpo tinha histórias para contar — incontáveis cidades, vilarejos, países, inumeráveis encontros: aos olhos de outrem, tal privação e tanto empenho constituiriam um feito. O próprio pai de Leith tinha encenado o truque da mobilidade, consumindo se em receptividade e novas impressões. O filho procurava recordar as despedidas nas plataformas de estação."
Trecho de Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume 2: 1941-1945, de Winston Churchill
Trecho de Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume 2: 1941-1945, de Winston Churchill
Nosso aliado soviético
A ENTRADA DA RÚSSIA NA GUERRA foi bem-vinda, mas não nos foi imediatamente útil. Os exércitos alemães eram muito fortes. Pareciam poder sustentar durante meses a ameaça de invasão da Inglaterra e, ao mesmo tempo, mergulhar na Rússia. Quase todas as opiniões militares responsáveis afirmavam que os exércitos russos logo seriam derrotados e em sua maior parte destruídos. O governo soviético deixara sua força aérea ser surpreendida no solo e os preparativos militares russos estavam longe de concluídos, um mau começo. Danos assustadores foram sofridos pelos exércitos russos. Apesar da resistência heróica, da competente direção despótica da guerra, do completo desapreço pela vida humana e do desencadeamento de uma guerrilha implacável na retaguarda do avanço alemão, houve, em todo o front russo de 1.200 milhas para o sul de Leningrado, um recuo geral de umas quatrocentas ou quinhentas milhas. A força do governo soviético, a firmeza do povo russo, suas reservas incomensuráveis de material humano, a vasta dimensão do país e os rigores do inverno foram os fatores que acabaram por desgraçar os exércitos de Hitler. Mas nada disso se evidenciava em 1941. O presidente Roosevelt foi considerado temerário ao declarar, em setembro, que a frente russa resistiria e que Moscou não seria tomada. A força e o patriotismo gloriosos do povo russo confirmaram essa opinião.
Mesmo em agosto de 1942, depois da minha visita a Moscou e das conferências lá realizadas, o general Brooke, que me havia acompanhado, achava que as montanhas do Cáucaso seriam atravessadas e que a bacia do mar Cáspio seria dominada pelas forças alemãs, de modo que, em consonância com isso, preparamo-nos na mais ampla escala possível para uma campanha defensiva na Síria e na Pérsia. Durante todo o tempo, tive uma opinião mais otimista que a de meus assessores militares sobre o poder de resistência dos russos. Eu me pautava confiantemente na garantia de Stalin, dada a mim em Moscou, de que ele defenderia a linha do Cáucaso e de que os alemães não chegariam ao mar Cáspio com qualquer força militar. Contudo, recebíamos tão pouca informação russa sobre os recursos e as intenções, que todas as opiniões, num sentido ou noutro, mal passavam de palpites.
É verdade que a entrada da Rússia na guerra desviou os ataques aéreos alemães da Inglaterra e reduziu a ameaça de invasão. Deu-nos um alívio importante no Mediterrâneo. Por outro lado, nos impôs sacrifícios e esforços sumamente pesados. Estávamos, enfim, começando a ficar bem equipados. Nossas fábricas de material bélico escoavam sua produção de toda sorte de suprimentos. Nossos exércitos no Egito e na Líbia travavam combates acirrados e clamavam pelas armas mais modernas, sobretudo tanques e aviões. A tropa do interior da Inglaterra aguardava ansiosamente os tão prometidos equipamentos novos, que, com toda a sua complexidade cada vez maior, estavam, enfim, fluindo para ela. Pois, nesse exato momento, fomos obrigados a fazer enormes desvios de nossos armamentos e suprimentos de todos os tipos, inclusive borracha e petróleo. Sobre nós recaiu a carga de organizar os comboios de suprimentos ingleses e, mais ainda, americanos, e de transportá-los para Murmansk e Arkangel passando por todos os perigos e rigores da travessia do Ártico. O suprimento americano era uma dedução daquilo que, a rigor, fora ou seria transportado com sucesso pelo Atlântico para nós mesmos. Para fazermos esse imenso desvio e renunciar ao fluxo crescente da ajuda americana, sem prejudicar nossa campanha no deserto ocidental, tivemos que restringir todos os preparativos que a prudência exigia para a defesa da Península Malaia e de nosso Império e possessões orientais contra a crescente ameaça do Japão.
Sem questionar no mais leve grau a conclusão, que a história há de afirmar, de que a resistência russa desarticulou o poderio dos exércitos alemães e infligiu danos mortais à energia vital da nação alemã, é lícito deixar claro que, durante mais de um ano depois de a Rússia se envolver na guerra, ela se apresentou ante nossos olhos como um fardo, não uma ajuda. Não obstante, rejubilou-nos ter essa poderosa nação junto a nós na batalha e todos achamos que, ainda que os exércitos soviéticos fossem empurrados até os montes Urais, a Rússia continuaria a exercer uma influência imensa e, em última instância – se perseverasse na guerra – decisiva.
Até o momento em que foi atacado por Hitler, o governo soviético não pareceu importar-se com ninguém senão consigo mesmo. Depois, como era natural, esse estado de ânimo tornou-se mais acentuado. Até então, haviam observado com impassível compostura o colapso do front da França, em 1940, e nosso esforço inútil, em 1941, para criar um front nos Bálcãs. Haviam fornecido uma importante ajuda econômica à Alemanha nazi e tinham-na amparado de muitas formas. Aí, depois de tapeados e apanhados de surpresa, eles mesmos ficaram sob a flamejante espada alemã.
Seu primeiro impulso e sua política duradoura consistiram em pedir todo o socorro possível à Inglaterra e seu Império, cuja possível partilha entre Stalin e Hitler, nos oito meses anteriores, desviara a atenção soviética do aumento da concentração de tropas alemãs no Leste. Eles não hesitaram em apelar, em estridentes termos da maior urgência, para a torturada e esforçada Inglaterra, para que esta lhes enviasse o armamento de que seus próprios exércitos tinham tamanha escassez. Instaram os Estados Unidos a desviar para eles o maior volume possível dos suprimentos com que contávamos e, acima de tudo, já no verão de 1941, clamaram por desembarques ingleses na Europa, quaisquer que fossem os riscos e os custos, para a abertura de uma Segunda Frente. Os comunistas ingleses, que até então haviam feito o pior que podiam – e que não era grande coisa – em nossas fábricas, e que haviam denunciado "a guerra capitalista e imperialista," viraram a casaca da noite para o dia e começaram a rabiscar o slogan "Segunda Frente Já!" nas paredes e nos cartazes.
Não deixamos que esses fatos meio lamentáveis e ignominiosos perturbassem nosso pensamento e fixamos os olhos no sacrifício heróico do povo russo, submetido às calamidades que seu governo fizera desabar sobre ele, e em sua apaixonada defesa da terra natal. Enquanto durasse a luta, isso compensou tudo.
Os russos nunca entenderam minimamente a natureza da operação anfíbia necessária para desembarcar e manter um grande exército num litoral inimigo bem defendido. Até os americanos, nessa época, desconheciam em grande parte essas dificuldades. Superioridade não só naval, mas também aérea, era indispensável no ponto da invasão. Além disso, havia um terceiro fator vital. Uma vasta armada de lanchas de desembarque especialmente construídas, sobretudo muitos tipos de barcaças de transporte de tanques, era a base de qualquer desembarque bem-sucedido contra uma vigorosa defesa. Eu vinha fazendo o que podia para a criação dessa armada, como já se viu e ainda se verá. Mas ela não poderia estar pronta, nem sequer em pequena escala, antes do verão de 1943, e seu poder, como hoje se reconhece em toda parte, só poderia estar na escala suficiente em 1944. No período a que agora chegamos, verão de 1941, não dominávamos o espaço.
Nosso aliado soviético
A ENTRADA DA RÚSSIA NA GUERRA foi bem-vinda, mas não nos foi imediatamente útil. Os exércitos alemães eram muito fortes. Pareciam poder sustentar durante meses a ameaça de invasão da Inglaterra e, ao mesmo tempo, mergulhar na Rússia. Quase todas as opiniões militares responsáveis afirmavam que os exércitos russos logo seriam derrotados e em sua maior parte destruídos. O governo soviético deixara sua força aérea ser surpreendida no solo e os preparativos militares russos estavam longe de concluídos, um mau começo. Danos assustadores foram sofridos pelos exércitos russos. Apesar da resistência heróica, da competente direção despótica da guerra, do completo desapreço pela vida humana e do desencadeamento de uma guerrilha implacável na retaguarda do avanço alemão, houve, em todo o front russo de 1.200 milhas para o sul de Leningrado, um recuo geral de umas quatrocentas ou quinhentas milhas. A força do governo soviético, a firmeza do povo russo, suas reservas incomensuráveis de material humano, a vasta dimensão do país e os rigores do inverno foram os fatores que acabaram por desgraçar os exércitos de Hitler. Mas nada disso se evidenciava em 1941. O presidente Roosevelt foi considerado temerário ao declarar, em setembro, que a frente russa resistiria e que Moscou não seria tomada. A força e o patriotismo gloriosos do povo russo confirmaram essa opinião.
Mesmo em agosto de 1942, depois da minha visita a Moscou e das conferências lá realizadas, o general Brooke, que me havia acompanhado, achava que as montanhas do Cáucaso seriam atravessadas e que a bacia do mar Cáspio seria dominada pelas forças alemãs, de modo que, em consonância com isso, preparamo-nos na mais ampla escala possível para uma campanha defensiva na Síria e na Pérsia. Durante todo o tempo, tive uma opinião mais otimista que a de meus assessores militares sobre o poder de resistência dos russos. Eu me pautava confiantemente na garantia de Stalin, dada a mim em Moscou, de que ele defenderia a linha do Cáucaso e de que os alemães não chegariam ao mar Cáspio com qualquer força militar. Contudo, recebíamos tão pouca informação russa sobre os recursos e as intenções, que todas as opiniões, num sentido ou noutro, mal passavam de palpites.
É verdade que a entrada da Rússia na guerra desviou os ataques aéreos alemães da Inglaterra e reduziu a ameaça de invasão. Deu-nos um alívio importante no Mediterrâneo. Por outro lado, nos impôs sacrifícios e esforços sumamente pesados. Estávamos, enfim, começando a ficar bem equipados. Nossas fábricas de material bélico escoavam sua produção de toda sorte de suprimentos. Nossos exércitos no Egito e na Líbia travavam combates acirrados e clamavam pelas armas mais modernas, sobretudo tanques e aviões. A tropa do interior da Inglaterra aguardava ansiosamente os tão prometidos equipamentos novos, que, com toda a sua complexidade cada vez maior, estavam, enfim, fluindo para ela. Pois, nesse exato momento, fomos obrigados a fazer enormes desvios de nossos armamentos e suprimentos de todos os tipos, inclusive borracha e petróleo. Sobre nós recaiu a carga de organizar os comboios de suprimentos ingleses e, mais ainda, americanos, e de transportá-los para Murmansk e Arkangel passando por todos os perigos e rigores da travessia do Ártico. O suprimento americano era uma dedução daquilo que, a rigor, fora ou seria transportado com sucesso pelo Atlântico para nós mesmos. Para fazermos esse imenso desvio e renunciar ao fluxo crescente da ajuda americana, sem prejudicar nossa campanha no deserto ocidental, tivemos que restringir todos os preparativos que a prudência exigia para a defesa da Península Malaia e de nosso Império e possessões orientais contra a crescente ameaça do Japão.
Sem questionar no mais leve grau a conclusão, que a história há de afirmar, de que a resistência russa desarticulou o poderio dos exércitos alemães e infligiu danos mortais à energia vital da nação alemã, é lícito deixar claro que, durante mais de um ano depois de a Rússia se envolver na guerra, ela se apresentou ante nossos olhos como um fardo, não uma ajuda. Não obstante, rejubilou-nos ter essa poderosa nação junto a nós na batalha e todos achamos que, ainda que os exércitos soviéticos fossem empurrados até os montes Urais, a Rússia continuaria a exercer uma influência imensa e, em última instância – se perseverasse na guerra – decisiva.
Até o momento em que foi atacado por Hitler, o governo soviético não pareceu importar-se com ninguém senão consigo mesmo. Depois, como era natural, esse estado de ânimo tornou-se mais acentuado. Até então, haviam observado com impassível compostura o colapso do front da França, em 1940, e nosso esforço inútil, em 1941, para criar um front nos Bálcãs. Haviam fornecido uma importante ajuda econômica à Alemanha nazi e tinham-na amparado de muitas formas. Aí, depois de tapeados e apanhados de surpresa, eles mesmos ficaram sob a flamejante espada alemã.
Seu primeiro impulso e sua política duradoura consistiram em pedir todo o socorro possível à Inglaterra e seu Império, cuja possível partilha entre Stalin e Hitler, nos oito meses anteriores, desviara a atenção soviética do aumento da concentração de tropas alemãs no Leste. Eles não hesitaram em apelar, em estridentes termos da maior urgência, para a torturada e esforçada Inglaterra, para que esta lhes enviasse o armamento de que seus próprios exércitos tinham tamanha escassez. Instaram os Estados Unidos a desviar para eles o maior volume possível dos suprimentos com que contávamos e, acima de tudo, já no verão de 1941, clamaram por desembarques ingleses na Europa, quaisquer que fossem os riscos e os custos, para a abertura de uma Segunda Frente. Os comunistas ingleses, que até então haviam feito o pior que podiam – e que não era grande coisa – em nossas fábricas, e que haviam denunciado "a guerra capitalista e imperialista," viraram a casaca da noite para o dia e começaram a rabiscar o slogan "Segunda Frente Já!" nas paredes e nos cartazes.
Não deixamos que esses fatos meio lamentáveis e ignominiosos perturbassem nosso pensamento e fixamos os olhos no sacrifício heróico do povo russo, submetido às calamidades que seu governo fizera desabar sobre ele, e em sua apaixonada defesa da terra natal. Enquanto durasse a luta, isso compensou tudo.
Os russos nunca entenderam minimamente a natureza da operação anfíbia necessária para desembarcar e manter um grande exército num litoral inimigo bem defendido. Até os americanos, nessa época, desconheciam em grande parte essas dificuldades. Superioridade não só naval, mas também aérea, era indispensável no ponto da invasão. Além disso, havia um terceiro fator vital. Uma vasta armada de lanchas de desembarque especialmente construídas, sobretudo muitos tipos de barcaças de transporte de tanques, era a base de qualquer desembarque bem-sucedido contra uma vigorosa defesa. Eu vinha fazendo o que podia para a criação dessa armada, como já se viu e ainda se verá. Mas ela não poderia estar pronta, nem sequer em pequena escala, antes do verão de 1943, e seu poder, como hoje se reconhece em toda parte, só poderia estar na escala suficiente em 1944. No período a que agora chegamos, verão de 1941, não dominávamos o espaço.
domingo, 15 de agosto de 2010
Saint Éxupery: "Terre des Hommes"
Bela frase encontrada no lindo livro de Éxupery, "Terra dos Homens":
“La vie nous en apprend plus long
sur nous que tous les livres;
parce qu’elle nous résiste...”
(Saint-Éxupery, Terre des Homes)
“La vie nous en apprend plus long
sur nous que tous les livres;
parce qu’elle nous résiste...”
(Saint-Éxupery, Terre des Homes)
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