quarta-feira, 30 de junho de 2010

Vc é insubstituível... e eu também! Texto de autoria anônima circulando na web

Vc é insubstituível... e eu também!


Na sala de reunião de uma multinacional o diretor nervoso fala com sua equipe de gestores.

Agita as mãos, mostra gráficos e, olhando nos olhos de cada um ameaça: "ninguém é insubstituível" .

A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao silêncio.

Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça.

Ninguém ousa falar nada.

De repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar o atrevido:

- Alguma pergunta?

- Tenho sim.

- E Beethoven ?

- Como? - o encara o diretor confuso.

- O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu Beethoven?

Silêncio.....

O funcionário fala então:

- Ouvi essa estória esses dias contada por um profissional que conheço e achei muito pertinente
falar sobre isso.

Afinal as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas, no fundo continuam achando
que os profissionais são peças dentro da organização e que, quando sai um, é só encontrar outro
para por no lugar.

Quem substituiu Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos
Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods?
Albert Einstein? Picasso? Zico? etc...

Todos esses talentos marcaram a história fazendo o que gostam e o que sabem fazer bem, ou seja,
fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são sim insubstituíveis.

Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa.

Está na hora dos líderes das organizações reverem seus conceitos e começarem a pensar em como
desenvolver o talento da sua equipe focando no brilho de seus pontos fortes e não utilizando
energia em reparar seus 'erros/ deficiências' .

Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo , se Picasso era instável , Caymmi
preguiçoso , Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico ...

O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e
melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos.

Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em
descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso
de seu projeto.

Se seu gerente/coordenador , ainda está focado em 'melhorar as fraquezas' de sua equipe corre o
risco de ser aquele tipo de líder/ técnico, que barraria Garrincha por ter as pernas tortas,
Albert Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo. E na gestão dele o mundo
teria perdido todos esses talentos.

Seguindo este raciocínio, caso pudessem mudar o curso natural, os rios seriam retos não haveria
montanha, nem lagoas nem cavernas, nem homens nem mulheres, nem sexo, nem chefes nem subordinados
. . . apenas peças.

Nunca me esqueço de quando o Zacarias dos Trapalhões 'foi pra outras moradas'. Ao iniciar o
programa seguinte, o Dedé entrou em cena e falou mais ou menos assim: "Estamos todos muito tristes
com a 'partida' de nosso irmão Zacarias... e hoje, para substituí-lo, chamamos:... . Ninguém ...
pois nosso Zaca é insubstituível"

Portanto nunca esqueça: Você é um talento único... com toda certeza ninguém te substituirá!

"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo..., mas posso fazer alguma coisa. Por não
poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso."

"No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é..., e outras..., que vão te
odiar pelo mesmo motivo..., acostume-se a isso..., com muita paz de espírito. ..".
É bom para refletir e se valorizar!

Uma ótima semana.... insubstituível!!!!!

domingo, 20 de junho de 2010

Livraria da Folha: Físico brasileiro contesta a teoria do Big Bang, leia trecho

Físico brasileiro contesta a teoria do Big Bang, leia trecho
Fonte: Livraria da Folha



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Em relação à origem do Universo, os pesquisadores se dividem basicamente em dois grupos: os que apoiam a teoria do Big Bang e os que sustentam a hipótese do Universo Eterno.

Divulgação

Livro analisa o surgimento de outras teorias sobre a origem do Universo

O brasileiro Mário Novello, doutor em física pela Universidade de Genebra e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que está no rol dos cientistas mais respeitados do mundo, é partidário do segundo grupo.

Polêmico por ter contabilizado os grávitons em 10 120 ("1" seguido por 120 "zeros"), partícula que os físicos não são capazes de comprovar a existência, Novello afirma em seu novo livro que a explicação do Big Bang é equivalente aos mitos religiosos.

Físico brasileiro faz maior contagem do Universo

Com lançamento previsto para o dia 30 de abril, "Do Big Bang ao Universo Eterno" apresenta as razões históricas que levam a teoria do Big Bang perder seu caráter hegemônico.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*
Em dezembro de 2007, concluí, com meu colaborador Santiago Bergliaffa, a redação de um artigo que uma revista científica me convidara a escrever, e que nos ocupou intensamente aquele ano todo. Tratava-se de analisar de modo crítico as diferentes propostas que os cosmólogos produziram, ao longo do século XX até os nossos dias, envolvendo modelos cosmológicos não singulares, isto é, modelos que se opõem frontalmente ao antigo cenário-padrão chamado big bang.

O resultado dessa análise - em que examinamos mais de 400 trabalhos científicos - foi um artigo longo, de mais de 100 páginas, que ganhou o título de "Bouncing cosmologies". Quando, no final do mesmo ano, enviamos o texto para a prestigiosa revista Physics Report, nos demos conta de que aquele era um momento simbólico do fim do paradigma paralisante do modelo explosivo. Com efeito, era a primeira vez, desde os anos 1970 - data que marca o começo da hegemonia do cenário da grande explosão -, que uma revista científica de tão elevada reputação na comunidade internacional da ciência abria tamanho espaço para examinar a questão crucial da cosmologia, a origem do Universo, fora do contexto simplista do cenário big bang.

Nesse cenário, o momento singular, caracterizado por uma condensação máxima pela qual o Universo passou há uns poucos bilhões de anos, é identificado ao "começo do Universo" e não permite análise anterior. Em oposição, no cenário não singular, o Universo não tem um "começo" separado de nós por um tempo finito em nosso passado; aquele momento de condensação máxima nada mais é que um momento de passagem de uma fase anterior para a atual fase de expansão.

No modelo cosmológico do Universo eterno, nesses cenários não singulares, dá-se um passo a mais, ao procurar uma explicação racional para a expansão do volume total do Universo. Dito de outro modo, trata-se de retirar o limite que os cientistas se impuseram arbitrariamente, no século XX, rumo à análise do que teria ocorrido antes do momento de máxima condensação, produzindo aquele estado único, especial, a partir do qual o volume total do espaço aumentaria com o passar do tempo cósmico, exibindo uma expansão.

O presente livro, baseado no artigo de 2007 e em uma série de conferências que realizei ao longo de 2007 e 2008, introduz o leitor não especialista à seguinte questão: o Universo teve um começo em um tempo finito, ou ele é eterno?

Neste momento, talvez fosse relevante abrir um pequeno parêntese para um comentário pessoal que me parece bastante significativo e exemplifica muito bem por que se manteve durante tanto tempo a exagerada hegemonia de que desfrutou o cenário big bang.

Quando, há uma década, eu estava passando um período de colaboração com cientistas da Universidade de Lyon, na França, fui convidado pelo Conselho Cultural de Villeurbane - região onde está situada aquela Universidade - a apresentar uma conferência para o grande público sobre os avanços da cosmologia. Ao conversar com alguns professores sobre a palestra, comentei que iria apresentar as duas alternativas que os cientistas haviam elaborado para descrever as origens do Universo: as propostas do big bang e do Universo eterno.

Um professor da Universidade de Lyon fez então um comentário que me espantou enormemente. Embora conhecendo minhas críticas a este modelo, disse que eu deveria falar apenas do big bang, acrescentando que não caberia enfatizar as dificuldades de princípio que ele possui. "Para as pessoas que não são especialistas em cosmologia, e mesmo para cientistas de outras áreas", continuou, "não se devem explicitar dúvidas que os cosmólogos possam ter sobre a evolução do Universo. Segundo ele, isso só contribuiria para reduzir o status dessa ciência, abrindo espaço para o aparecimento de explicações de caráter não científico e até transcendentais." Acrescentou que isso se devia à particularidade da cosmologia e à grandiosidade do objeto de seu estudo, estas centenas de bilhões de galáxias e estrelas que podemos observar no Universo.

Respondi-lhe que aquilo ia contra meu propósito de ensinar, entendendo que esta função tem por principal atributo pôr em dúvida todo conhecimento, incluindo aquele que se pretende isento de críticas. E também que vivíamos uma situação de transição, na qual o antigo modelo big bang perdia seu caráter absolutista e hegemônico - o que efetivamente aconteceu na década seguinte. Ademais, acrescentei, deveríamos ter todo cuidado ao deixar sair dos laboratórios e passar para a sociedade informações que os cientistas estão longe de poder demonstrar com toda certeza. Mais ainda: como essas verdades provisórias alcançam imediatamente as páginas dos jornais cotidianos e das revistas não especializadas, devemos, logo que possível, esclarecer e enfatizar essa condição efêmera, com mais razão ainda quando se trata de questões envolvendo tema tão sensível quanto o "começo de tudo".

Embora o problema da "origem do Universo" não tenha, para os cosmólogos, importância primordial - pois é um dentre vários com que se defrontam na produção de uma explicação racional a respeito dos diversos fenômenos observados no Universo -, para a maioria das pessoas ele apresenta um interesse fantasticamente grande, que vai muito além da simples curiosidade eventual e passageira. A razão para isso tem a mesma origem daquela que impulsionou os povos do passado, ao longo da história de todas as civilizações, a produzir mitos cosmogônicos sobre a criação.

O estudo desses diferentes modos de conceber, nas civilizações antigas, de onde e como surgiu tudo que existe possui uma bibliografia vasta e bastante específica. Quanto à forma científica de organizar e divulgar essa questão, a quase totalidade de textos de fácil acesso se limita à versão da criação explosiva. Isso seria aceitável se ela fosse validada pela observação, sem que houvesse qualquer explicação alternativa. Mas, ao contrário, como veremos, ela é precisamente o modelo que inibe uma história racional completa do Universo.

Nas últimas três décadas, houve uma exagerada exposição e exaltação do big bang. Por outro lado, existe um desconhecimento quase completo a respeito do cenário do Universo eterno. Este livro pretende equilibrar a situação. Em alguns capítulos, acrescentei comentários sobre assuntos abordados no texto. No final do livro, incluí um glossário com o intuito de complementar informações e reunir definições simplificadas de termos técnicos.

Antes de começarmos nossa caminhada, porém, devo fazer um comentário adicional. Nos últimos anos, por diferentes razões, a cosmologia tem estado permanentemente sob os holofotes da mídia, seja na imprensa, na televisão ou mesmo em discos com pactos. É fácil constatar que muitas das informações referentes ao big bang são produzidas sem que se obedeça ao compromisso fundamental que qualquer divulgador da ciência - seja ele cientista ou não - deve cumprir. Como a divulgação científica se destina, na maior parte das vezes, a não especialistas - que não possuem as ferramentas formais para avaliar criticamente o que lhes é apresentado -, toda afirmação que se faz e que não teve ainda sua veracidade confirmada pelos métodos convencionais, absolutos e universais da ciência deve exibir para o ouvinte e/ou o leitor sua condição limitada ou provisória. Caso contrário, como já comentei, esse uso indevido do status elevado que a ciência possui nada mais será que uma "máscara atrás da qual se esconde um poder político que não ousa se declarar como tal"

*
"Do Big Bang ao Universo Eterno"
Autor: Mario Novello
Editora: Zahar
Páginas: 132
Quanto: R$ 28,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

sexta-feira, 18 de junho de 2010

FIRST CHAPTER - 'The Cave' - By JOSÉ SARAMAGO

'The Cave'
By JOSÉ SARAMAGO

FIRST CHAPTER


he man driving the truck is called Cipriano Algor, he is a potter by profession and is sixty-four years old, although he certainly does not look his age. The man sitting beside him is his son-in-law, Marçal Gacho, and he is not yet thirty. Nevertheless, from his face too, you would think him much younger. As you will have noticed, attached to their first names both these men have unusual family names, whose origin, meaning, and reason they do not know. They would probably be most put out to learn that "algor" means the intense cold one feels in one's body before a fever sets in, and that "gacho" is neither more nor less than the part of an ox's neck on which the yoke rests. The younger man is wearing a uniform, but is unarmed. The older man has on an ordinary jacket and a pair of more or less matching trousers, and his shirt is soberly buttoned up to the neck, with no tie. The hands grasping the wheel are large and strong, peasant's hands, and yet, perhaps because of the daily contact with soft clay inevitable in his profession, they also suggest sensitivity. There is nothing unusual about Marçal Gacho's right hand, but there is a scar on the back of his left hand that looks like the mark left by a burn, a diagonal line that goes from the base of his thumb to the base of his little finger. The truck does not really deserve the name of truck, since it is really only a medium-sized van, of a kind now out of date, and it is laden with crockery. When the two men left home, twenty kilometers back, the day had barely begun to dawn, but now the morning has filled the world with sufficient light for one to notice Marçal Gacho's scar and to speculate about the sensitivity of Cipriano Algor's hands. The two men are traveling slowly because of the fragile nature of the load and also because of the uneven road surface. The delivery of merchandise not considered to be of primary or even secondary importance, as is the case with plain ordinary crockery, is carried out, in accordance with the official timetables, at mid-morning, and the only reason these two men got up so early is that Marçal Gacho has to clock in at least half an hour before the doors of the Center open to the public. On the days when he does not have to give his son-in-law a lift but still has crockery to deliver, Cipriano Algor does not have to get up quite so early. However, every ten days, he is the one who goes to fetch Marçal Gacho from work so that the latter can spend the forty hours with his family to which he is entitled, and, afterward, Cipriano Algor is also the one who, with or without crockery in the back of the van, punctually returns him to his responsibilities and duties as a security guard. Cipriano Algor's daughter, who is called Marta and bears the family names of Isasca, from her late mother, and Algor, from her father, only enjoys the presence of her husband at home and in bed for six nights and three days every month. On the previous night, she became pregnant, although she does not know this yet.


The area they are driving through is dull and dirty, not worth a second glance. Someone gave these vast and decidedly unrural expanses the technical name of the Agricultural Belt and also, by poetic analogy, the Green Belt, but the only landscape the eyes can see on either side of the road, covering many thousands of apparently uninterrupted hectares, are vast, rectangular, flat-roofed structures, made of neutral-colored plastic which time and dust have gradually turned gray or brown. Beneath them, where the eyes of passersby cannot reach, plants are growing. Now and then, trucks and tractors with trailers laden with vegetables emerge from side roads onto the main road, but most of these deliveries are done at night, and those appearing now either have express and exceptional permission to deliver late or else they must have overslept. Marçal Gacho discreetly pushed back the left sleeve of his jacket to look at his watch, he is worried because the traffic is gradually becoming denser and because he knows that, from now on, once they enter the Industrial Belt, things will only get worse. His father-in-law saw the gesture, but said nothing, this son-in-law of his is a nice fellow, but very nervous, one of those people who was born anxious, always fretting about the passage of time, even if he has more than enough, in which case he never seems to know quite how to fill it, time, that is. What will he be like when he's my age, he thought. They left the Agricultural Belt behind them, and the road, which grows dirtier now, crosses the Industrial Belt, cutting a swath through not only factory buildings of every size, shape, and type, but also fuel tanks, both spherical and cylindrical, electricity substations, networks of pipes, air ducts, suspension bridges, tubes of every thickness, some red, some black, chimneys belching out pillars of toxic fumes into the atmosphere, long-armed cranes, chemical laboratories, oil refineries, fetid, bitter, sickly odors, the strident noise of drilling, the buzz of mechanical saws, the brutal thud of steam hammers and, very occasionally, a zone of silence, where no one knows exactly what is being produced. That was when Cipriano Algor said, Don't worry, we'll get there on time, I'm not worried, replied his son-in-law, only just managing to conceal his anxiety, Of course you're not, but you know what I mean, said Cipriano Algor. He turned the van into a side road reserved for local traffic, Let's take a shortcut down here, he said, if the police ask us why we're here, just remember what we agreed, we had some business to deal with at one of these factories before we went into town. Marçal Gacho took a deep breath, whenever the traffic on the main road got bad, his father-in-law would always, sooner or later, take a detour. What worried him was that he might get distracted and decide to make the turn too late. Fortunately, despite all his fears and his father-in-law's warnings, they had never yet been stopped by the police, One day, he'll realize that I'm not a little boy any more, thought Marçal, and that he doesn't have to remind me every time about how we have business to deal with at one of the factories. It did not occur to either of them that the real reason behind the continued tolerance or benevolent indifference of the traffic police was Marçal Gacho's uniform, that of a security guard working at the Center, rather than the result of multiple random lucky breaks or of stubborn fate, as they would doubtless have said if asked why they thought they had so far escaped being fined. Had Marçal Gacho known this, he might have made more of the weight of authority conferred on him by his uniform, and had Cipriano Algor known this, he might have spoken to his son-in-law with less ironic condescension. It is true what people say, the young have the ability, but lack the wisdom, and the old have the wisdom, but lack the ability.

Once past the Industrial Belt, the city finally begins, not the city proper, for that can be seen beyond, touched by the caress of the first, rosy light of the sun, and what greets one are chaotic conglomerations of shacks made by their ill-housed inhabitants out of whatever mostly flimsy materials might help to keep out the elements, especially the rain and the cold. It is, as the inhabitants of the city put it, a frightening place. Here, every now and then, and in the name of the classical axiom which says that necessity knows no law, a truck laden with food is held up and emptied of its contents before you can say knife. The modus operandi, which is extremely efficient, was devised and developed after a prolonged period of collective reflection on the results of earlier attempts whose failure, as immediately became apparent, was due to a total lack of strategy, to antiquated tactics, if one could glorify them with that name, and, lastly, to a poor and erratic coordination of forces, which amounted, in practice, to a system of every man for himself. Since the flow of traffic was almost continuous throughout the night, blocking the road in order to stop one truck, which was their first plan of action, meant that the assailants fell into their own trap, for behind that truck came others, bringing reinforcements and immediate help for the driver in distress. The solution to the problem, quite brilliant, as the police themselves privately acknowledged, consisted in dividing the assailants into two groups, one tactical, the other strategic, and in erecting two barriers instead of one, the tactical group swiftly blocking the road after one sufficiently isolated truck had passed, and the strategic group, a few hundred meters farther up the road and informed of this action by the predetermined signal of a flashing light, equally rapidly setting up a second barrier where the ill-fated vehicle would have no alternative but to stop and allow itself to be robbed. No roadblock was required for the vehicles traveling in the opposite direction, the drivers themselves would stop when they saw what was going on up ahead. A third group, the rapid intervention force, was responsible for dissuading any bold attempt at solidarity with a rain of stones. The barriers were built out of large boulders transported on stretchers, and, afterward, some of the actual assailants, swearing blind that they had had nothing to do with the robbery, would help to move the boulders onto the hard shoulder, It's people like them that give our area a bad name, we're honest folk, they would say, and the drivers of the other trucks, anxious to have the road cleared so that they would not arrive late at the Center, merely responded, Yeah, sure. Cipriano Algor's van has been saved from such incidents en route mainly because he nearly always travels through these areas by day. At least, up until now. Indeed, since earthenware crockery usually appears on poor tables and tends to break fairly easily, the potter is not entirely safe, for, who knows, some woman, one of the many who struggle to make ends meet in these shantytowns, might one day say to the head of the household, We need some new plates, to which he will doubtless respond, No problem, I sometimes see a van driving past with Pottery written on the side, it's bound to have some plates on board, And some mugs too, the woman will add, making the most of the favorable tide, All right, some mugs as well, I won't forget.

Between the shacks and the first city buildings, like a no-man's-land separating two warring factions, is a large empty space as yet unbuilt on, although a closer look reveals on the ground a crisscrossing network of tractor trails and areas of flattened earth that can only have been created by large mechanical diggers, whose implacable curved blades pitilessly sweep everything away, the ancient house, the new root, the sheltering wall, the place where a shadow once fell and where it will never fall again. However, just as happens in our own lives when we think that everything has been taken away from us, only to notice later that something does, in fact, still remain, so here too a few scattered fragments, some filthy rags, some bits of recycled rubbish, some rusty cans, some rotten planks, a piece of plastic sheeting blown hither and thither by the wind, reveal to us that this territory was once occupied by the homes of the excluded. It will not be long before the city buildings advance like a line of riflemen and take over this plot, leaving only a thin strip of land between the outermost buildings and the first shacks, a new no-man's-land that will remain until it is time to move on to the third phase.

Continue...

DA JUSTIÇA À DEMOCRACIA - JOSÉ SARAMAGO

Da justiça à democracia - José Saramago.

Carta de José Saramago lida no encerramento do II Fórum Social Mundial em 2002.


Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de 400 anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há 50 anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas 30 direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há 400 anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em conseqüência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

Da justiça à democracia - José Saramago, 2002.